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Para um novo paradigma historiográfico*

 

 

Carlos Barros

Universidade de Santiago de Compostela

 

 

                En fins do século XX, fala-se, e com razâo, da crise da história. O dicionário da Real Academia Espanhola diz que a palavra “crise” significa duas coisas, simultaneamente: uma mutaçâo importante e uma situaçâo difícil. Ou seja, há crise, quando há dificuldades, mas está ocorrendo uma mudança e, certamente, o segundo explica o primeiro. Nâo se costuma ver assim: quando se alude a uma crise, pensa-se mais em problemas e em complicaçaôes que em soluçôes e facilidades, o que dificulta a saída.

 

 

A história em crise

 

                Mas, quando falamos da crise da história, algúns podem estar pensando, também com razâo, que há quem creia e quem nâo creia em crise da história. Contudo, nossa disciplina vive sua crise independentemente do grau de conhecimento que cada colega tenha dela. Quando, em outubro de 1917, explodiu a revoluçâo na Rússia czarisa, podia haver pessoas que nâo estivessem fazendo nada, enquanto se sucedian tais fatos, que nâo deixavam, por isso, de ser historicamente extraordinarios[1]. Nâo somos, acaso, cientistas sociais para isso, para ir além da aparência e da cotidianidade das coisas, buscando ver o que se passa nas profundezas dos momentos históricos e nas profundezas de nossa disciplina duplamente histórica?

 

                A crise da história, como disciplina, faz parte de uma cris geral, ideológica, política, de valores, que afeta o conjunto das ciencias sociais e humanas. Muito do que vamos falar sobre crises e saídas poderia aplicar-se, mutadis mutandis, à antropologia ou à sociologia, mas vamos referir-nos àquilo que conhecemos e que nos interesa mais: a história como ofício, na transiçâo enre dois séculos.

 

                O caráter geral dessa crise deriva da simultaneidade da crise da história e da crise da escrita da história, e diz respeito a todas as dimensôes da profissâo de historiador e de sua relaçâo com a sociedade. Vivemos, por conseguinte, uma crise, uma dificuldade/mutaçâo global, porque afeta a prática da história (a maneira de investigar e de escrever a história), a teoria da história e a funçâo social da história (desvalorizada, num mundo futuro, que alguns ainda querem sem alma, tecnocrático).

 

                A primeira vítima da crise historiográfica foi o paradigma economicista, determinista e estruturalista, que identificou os novos historiadores a partir da Segunda Guerra Mundial. Mas nâo parou aí, como evidenciou Geog Iggers, concerne tambén à própria definiçâo científica de nossa disciplina, cuja origem remonta ao positivismo oitocentista. Críticos da história-ciência propugnam a equiparaçâo da história com a literatura, pela via de seu parentesco com a ficçâo, a narraçâo, a hermenêutica ou a “viragem lingüística”, proposta a partir dos Estados Unidos. Relaçôes epistemológicas produtivas, em sua versâo moderada, mas destrutivas, quando nos fazem retroagir, queiram ou nâo seus defensores mais extremistas, ao século XIX, quando a história era uma disciplina pré-paradigmática, anulando boa parte do capital acumulado por nossa disciplina durante mais de um século. Por esse caminho, a vertente de dificuldade que tem nossa crise atinge o fundo, e é entâo que tende a impor-se a vertente da mudança paradigmática, imprescindível para proporcionar respostas às anomalias que questionam nossa velha identidade (a nova história).

 

                A primeira vítima da crise historiográfica foi o paradigma economicista, determinista e estruturalista, que identificou os novos historiadores a partir da Segunda Guerra Mundial[2]. Mas nâo parou aí, como evidenciou Georg Iggers[3], concerne também à própria definiçâo científica de nossa disciplina, cuja origem remonta ao positivismo oitocentista. Críticos da história-ciência propugnam a equiparaçâo da história com a literatura, pela via de seu parentesco com a ficçâo, a narraçâo, a hermenèutica ou a “viragem lingüística”, proposta a partir dos Estados Unidos. relaçôes epistemológicas produtivas, em sua versâo moderada, mas destrutivas, quando nos fazem retroagir, queiram ou nâo seus defensores mais extremistas, ao século XIX, quando a história era uma disciplina pre-paradigmática, anulando boa parte do capital acumulado por nossa disciplina durante mais de um século. Por esse caminho, a vertente de dificuldade que tem nossa crise atinge o fundo, e é entâo que rende a impor-se a vertente da mudança paradigmática, imprescindível para proporcionar respostas às anomalias que questionam nossa identidade (a nova história).

 

                Vamos explicar em três frases como se foi manifestando essa crise de fim de século da história[4], tomando como referència as décadas dos anos 1970, 80 e 90 (as tendências que analisamos se mostram com clareza no final de cada período cronológico). Paralelamente, devemos deixar claro que nos estamos referindo à evoluçâo da historiografia internacional, em geral, mais que a Espanha e a América Latina receberam o impacto das historiografias mais avançadas com uma defasagem cronológica, que nos obrigaria a introduzir variaçôes temporais na pressuposiçâo de nossas historiografias nacionais. Defasagem que, é preciso dizer, é cada vez menor. Na última década do século, a globalizaçâo historiográfica está reduzindo a distância entre as historiografias nacionais, transmitem-se mais rapidamente as mudanças: no século XXI, viveremos ainda mais simultaneamente as evoluçôes da história e da historiografia.

 

 

Primeiro retorno do sujeito

 

                O contexto sociopolítico e ideológico que caracteriza os anos 1970 é marcado pelo retroceso de tudo o que supôs maio de 68 na história e em sua escrita. Nesse contexto de retomada, recebe seu primeiro golpe o paradigma estruturalista, economicista e determinista, que imperou em nossa disciplina e em outras ciências sociais durante os anos 1960. A primeira reaçâo historiográfica ao objetivismo rasteiro, que nos augurava um futuro feliz, graças ao desenvolvimento inelutável das contradiçôes estruturais, foi o retorno do sujeito, inscrito virtualmente, mas jamais desenvolvido nas matrizes da nova história, seja annaliste, seja marxista. A história descobre, pois, o sujeito antes da sociologia e da filosofia[5]: quase vinte anos antes de os sociólogos se porem a investigar e refletir sobre o ator social, a eleiçâo nacional ou a açâo coletiva ou de que ficasse em moda a filosofia do sujeito...

 

                De modo que a historiografia européia avança, nos anos 1970, mais que a história econômica e estrutural: a francesa, desenvolvendo o que se chamou a história das mentalidades, e que se desdobrou, depois, em história do imaginário, antropologia histórica, nova história cultural...[6]; e a inglesa, impulsionando um novo tipo de história social, nâo estuturalista.

 

                No primeiro caso, falamos da passagem dos segundos aos terceiros Annales, do redescobrimento do sujeito mental, já presente na obra, e da reflexâo dos fundadores dessa escola. No segundo caso, trata-se de um desenvolvimento original do materialismo histórico, com uma boa base empírica e antropológica, centrado no estudo histórico das revoltas e da mudança social.

 

                Contudo, o redescobrimento inglês do sujeito social ocorreu excessivamente tarde e excessivamente rápido. Explicamo-nos. Excessivamente tarde, porque o paradigma comum, esses consensos que partilhavam os historiadores nas décadas centrais do século, evoluíra claramente, nos anos 1960, para um planejamento economicista, estruturalista e determinista, que dominou também a leitura acadêmica (e nâo-acadêmica) do marxismo. É preciso lembrar que a reaçâo dos historiadores marxistas, ante os excessos marxistas do estruturalismo, é muito taria. Mil novecentos e setenta e oito é a data de ediçâo desse magnífico livro –embora, por sua vez, criticável, como demonstrou Perry Anderson, entre outros- de E.P. Thompson, Miseria de la Teoría, em que defende um marxismo com sujeito, ante o marxismo objetivista, sem consciência e sem história, dos seguidores do estruturalismo althusseriano. E tambén excessivamente tardio, porque, quando se manifesta, na Grâ-Bretanha, essa leitura cultural e humanista de Marx, que entendia a história como a hstória da luta de classes, o contexto ideológico e político tinha mudado tanto que o marxismo, qualquer que fosse sua versâo, deixara de interessar, arrastrando consigo as teses doutorais sobre conflitos, revoltas e revoluçôes, que deixaram de se fazer. E, por último, chegava excessivamente rápido, se considerarmos que o interesse pela história social “dura” se reproduz nos anos 1990, segundo analisado em outro lugar[7], e só agora começam a surgir as condiçôes para a passagem para um novo paradigma que possa incorporar o sujeito (social e mental).

 

                Esses avançôs historiográficos, que, há vinte anos, devolveram o sujeito ao centro da história, sâo, portanto, uma referência indispensável para as discussôes em curso sobre o novo paradigma, que tem como desafio principal a integraçâo, num só enfoque, da história objetiva e da história subjetiva (quer nos refiramos ao agente histórico, quer ao próprio historiador): entre ambas, oscilou pendularmente a historiografia do século XX. O futuro da história das mentalidades e da história da mudança social está, em conseqüência, na mudança global de paradigmas.

 

 

A fragmentaçâo

 

                Nos anos 1980, muda de raiz o contexto político-ideológico no mundo, principalmente nos EE.UU. e na Grâ-Bretanha. Sâo os anos do neoconservadorismo, que depois se chamou neoliberalismo ou pensamento único, e sâo os anos da difusâo do pós-modernismo, como proposta filosófica de moda. A historiografia ocidenal se fragmenta, enâo, em temas, métodos e escolas, até um limite anteriormente inimaginável: colegas franceses chamaram a isso de história em migalhas[8].

 

                A primeira grande fissura foi o retorno do sujeito, nos anos 1970, mental e/ou social, porque, até esse momento, importavam sobretudo a história econômica e a história das estruturas sociais[9]. Desde entâo, temos uma história objetiva e uma história subjetiva, e aí começam a diversficaçâo e o distanciamento de umas especialidades em relaçào às outras: raramente a história econômica contempla o sujeito; raramente a história das mentalidades inclui o socioeconômico.

 

                Outros didzem, nâo sem razâo, que a fragmentaçâo da história e a inevitável especializaçâo nâo sâo mais que uma crise de crescimento, uma prova da maturidade de nossa disciplina. Ë evidente que passar da monocultura de história econômico-social para a heterogeneidade actual, onde interessam, para a investigaçâo, todos os aspectos do passado, supôe um grande avanço, mas, com o tempo, um grande problema, porque nos afasta da visâo global do pasado humano, que nos exigem a ciência e a sociedade.

 

                Nos anos 1980, acontece o segundo grande retorno do sujeito. Nesse caso, trata-se do sujeito tradicional –a biografia, a narraçâo, a história política- cujo ingresso lança um notório desmentido à revoluçào historiográfica do século XX, animada pela escola dos Annales, pelo marxismo e pelos setores reciclados da historiografia tradiciaonal. Produz-se, paralelamente, uma implosâo, uma explosâo de dentro, do paradigma comum dos novos historiadores: uma crise global das três grandes correntes que renovaram a maneira de escrever a história no século que acaba. Falou-se, em separado, da crise dos Annales, da crise da história social, da crise da cliometria[10]: cada um vendo o cisco no olho alheio e nâo a viga no próprio, sem compreender –até mesmo hoje, quando se torna, se possível, mais evidente- o caráter global da crise da história e, menos ainda, a subjacente mudança de paradigmas.

 

                T.S. Kuhn, autor de Estructura de las revoluciones científicas, descobriu que os paradigmas partilhados que unificam uma disciplina continuam vigentes, embora nâo exista um paradigma comum que os substitua. Isso justifica que, nos anos 1980, e ainda nos 90, se continue dizendo, em muitas aulas de historiografia, o mesmo que há vinte anos, e em muitas memórias de oposiçâo: a única ocasiâo em que o professor universitário está obrigado –na Espanha- a definir seu conceito da história, e em que é habitual dedicar uma parte do projeto ao positivismo, outra ao marxismo e outra aos Annales, calculando, tal vez, o examinando, que, sendo três, dos cinco membros da banca, eleitos por sorteio, mal será que nâo se considerem próximos de uma ou de várias de tais correntes. Assim se vieram fazendo as memórias de oposiçâo, excelente fonte para estudar os paradigmas compartilhados de uma disciplina, até bem pouco tempo[11], em que se demostra a força de inércia de um paradigma que sobrevive, a pesar da crise, enquanto nâo se afirma sua alternativa.

 

 

A filosofia contra a história

 

                Em 1989, chega ao clímax uma década marcada pelo neoliberalismo e pelo pós-modernismo, pela fragmentaçâo historiográfica e pela crise da idéia de progresso, que constituem a filosofia básica dos três movimentos historiográficos mais importantes do século XX e, em geral, das ciências sociaies, que se alimentaram, desde suas origens, do mesmo modo que a história científica, da filosofía de Ilustraçâo.

 

                Os “ataques” da filosifia política à idéia de progresso[12], por um lado, a tese de Francis Fukuyama e, por outro, a pós-modernidade tocam em cheio num dos mais importantes paradigmas, partilhados pelos historiadores do século XX: a relaçâo passado/presente/futuro. Conceitos que, até nâo muito tempo, estavam bem imbricados: estudamos o passado para compreender o presente e construir um futuro melhor; um futuro socialista se dizia incluído desde o marxismo...

 

                A proclamación do “final da História” partiu de um artigo inteligente e intuitivo do neoconservador Fukuyama, escrito no verâo de 1989, quando o autor nâo podia saber que, no final desse mesmo ano, cairia o Muro de Berlim e se iniciaria a transiçâo do socialismo real para o capitalismo (que logo se tornou frustrante, selvagem, mafioso), nos países da órbita soviética. para Fukuyama, intérprete mediato de Hegel, a História chegara ao final do trajeto, e todos os países do mundo se unificariam ao redor do sistema político democrático e do que, eufemisticamente, se denomina “economía de mercado”, a reçâo dos historiadores foi de hostilidade e de desprezo, matou-se, em suma, o mensageiro das más notícias, desqualificando seu proclama como uma argúcia política imperialista. Alguns, sem ler os trabalhos de Fukuyama, entenderam, inclusive, que ele pretendia liquidar a disciplina que nos dá de comer, confundindo o “h” minúsculo da história, como sucessâo de acontecimentos, com o “H” maiúsculo da História universal[13]. É preciso dizer que o própio Fukuyama, em trabalhos posteriores, foi matizando e auto-retificando seu traçado inicial, até desmenti-lo, reconhecendo seu equívoco, numa entrevista ao New York Times (30 de agosto de 1998), uma vez conhecido o fracasso das transiçôes no leste da Europa, especialmente na Rússia, e a crise das economias emergentes do Extremo Oriente, acontecimentos econômicos que ameaçaban uma recessâo econômica mundial.

 

                Contudo, que aprendemos do debate Fukuyama –já que a História nâo tem uma meta prefixada?[14]; conclusâo realmente revolucionária, porque vimos da tradiçâo judeu-cristâ, cuja leitura providencialista da historia faz com que esta termine no Juízo Final; teleologismo que a filosofia alemâ do século XIX continuou, substituindo a  ressurreiçâo dos mortos e a segunda vinda de Jesus pelo Estado liberal hegeliano, primeiro, e pela sociedade comunista de Marx e Engels, depois. A filosofia ocidental mais influente foi finalista, aceitar, agora, que o futuro esteja aberto nâo justificaria, ainda que nâo houvesse mais motivos, pois os há, falar de um novo paradigma da história, que nos faz mais livres, porque nos sabemos mais responsáveis por nosso destino?- os futuros sâo vários, e a funçâo do historiador, dando a conhecer as encruzilhadas da história, é fazer ver –a nossos contemporâneos- que existem futuros alternativos, contingentes.

 

                Se a humanidade nâo caminha inelutavelmente para um final feliz quererá isso dizer que há que se resignar com o que temos, e renunciar a “transformar o mundo”? Evidentemente que nâo, renunciando a uma história determinista –que hoje é reivindicada, curiosamente, pelo pensamento único- recuperamos uma liberdade para o sujeito, sem messianismos, que nâo exclui grandes objetivos, inclusive revolucionários, como o demonstra o neozapatismo mexicano.

 

                Dizíamos que houve, mesmo assim, um “ataque”, a partir do pós-modernismo, à relaçâo passado/presente/futuro. Esclareça-se, primeiro, que quando falamos de pós-modernismo, nos referimos, primordialmente, às obras de Jean-François Lyotard e de Gianni Vattimo, por sua clareza expositiva, pela conseqüencia de seu contúdo e de sua difusâo, sobretudo na Europa. Nos Estados Unidos, contudo, costumam-se incluir, de modo inapropriado, pós-estruturalistas, como Michel Foucault, e deconstrucionistas, como Jacques Derrida, sob o rótulo de uma pós-modernidade, cujo posicionamento contra o compromiso intelectual se choca como o currículo acadêmico de tais autores[15].

 

                Os filósofos pós-modernos e Fukuyama partem efetivamente de presupostos opostos, os primeiros negam a modernidade, e o segundo diz que ela chegou à sua plenitude, mas ambos coincidem numa coisa: deixam-nos sem futuro. Ambos os enfoques delocam os historiadores, investindo contra o paradigma clássico passado/presente/futuro, porque, se nâo temos nada a dizer sobre o futuro, é que, tampouco, nada temos a dizer do passado.

 

                Fukuyama nega um futuro alternativo, porque assegura que a história chegou ao fim e, portanto, o futuro, como algo essencialmente distinto do presente, desaparece; seu futruo é, pois, um presente contínuo. E o pós-modernismo nega a conquista de um futuro melhor, a partir do conhecimento do passado e da crítica do presente, ao asseverar que o fracasso da modernidade conduz à idéia de progresso. De um lugar ou de outro, é-nos sugerido, numa palabra, que nâo temos futuro como historiadores, cuja investigaçâo nâo interesa socialmente.

 

                Quando falamos de pós-modernidade historiográfica, nào queremos assegurar que os historiadores estejam em dia com a corrente filosófica em si: o historiador nâo lê regularmente filosofia, mas divide –dividimos- com o filósofo de fim de século um pós-modernismo ambiental, que afeta em cheio a metodologia da história e da filosofia, que queiramos ou nâo, subjaz em nosso trabalho[16]: a desagregaçào da disciplina e o “vale tudo2, o desinteresse do historiador –como tal- para como o mundo que nos rodeia e seus problemas, certo niilismo existencial, surgido do desencanto pós-68, o individualismo exacerbado, a oposiçâo anarquista a todo paradigma, etc.

 

                Isso nos leva a contemplar o pós-modernismo por seu lado ambíguo e negativo. O traço vital que define o historiador pós-moderno –que, freqüentemente, declama essa prosa sem o saber- é que se instala comodamente na fragmentaçâo e na crise da disciplina, sem vontade –sem interese- de superar ambas as anomalias, que, naturalmente, nâo sâo contempladas como tais. Essa instalaçâo na crise gera três posiçôes:

 

                A primeira posiçâo é a dos que argumentam que, se se fundiram os paradigmas historiográficos do século XX, para que buscar outros? Chegam a dizer: estamos bem sem paradigmas partilhados (que alguns, sem ler Kuhn,  “inventando o adversário”, equiparam a vulgares ortodoxias), “vale tudo”, “acabaram-se as certezas”, “que cada um faça o que quiser”... Aplicam, assim, muitos sem conhecê-la, a proposta de Feyerabend de substituir o racionalismo pelo anarquismo na teoría do conhecimento[17]. Trata-se, no fundo, de uma posiçâo conservadora, que, como ja dissemos, perpetua o presente.

 

                A segunda posiçâo, e a mais conseqüente, é mantida pelos que defendem que o novo paradigma é a propria fragmentaçâo, com tudo o que supôe de liberdade para o investigador, de pluralismo e garantia contra toda “ortodoxia” acadêmica e/ou política. Ou seja, a acracia metodológica até suas últimas conseqüencias: paradoxalmente elevada à categoria institucional.

 

                A terceira posiçâo é sustentada pelos que reduzem a história pós-modernista à nova história ou, com mais propriedade, à novíssima história: “viragem lingüística”, micro-história ou nova história cultural; forçando, às vezes, a intençâo de seus promotores, que quase nunca pretedem prescindir em conjunto, do discurso da modernidade[18].

 

                As três suposiçôes (pós-modernidade anarquista, “conseqüente” ou neopositivista) têm em comum o abandono, em maior ou menor grau, da funçâo crítica da história, e, no pior dos casos, a renúncia a toda definiçâo da história como ciência, condicionando gravemente o futuro de nossa disciplina na sociedade e na academia.

 

                O instrumento do processo de desagregaçâo e de deslocamento da história como ofício, ao longo dos anos 80, foi ouvir declarar –e deixar o intempestivo sem resposta- que o mercado substitui os homens, como sujeitos da história, numa alucinante viragem da história intelectual (e econômica), que nos devolveu a um objetivismo, a um economicismo e a um estruturalismo de signo diferente que o dos anos 1960 e 70, mas talvez, mais danoso, epistemologicamente, porque coincide com um retrocesso histórico-social dos valores humanistas que fundamentarm as ciências humanas e sociais desde sua criaçâo.

 

                E, com isso, aproximamo-nos dos anos 1990, que surpreendentemente, se estâo tornando decisivos, em vários sentidos, também para a mudança de paradigmas em nossa disciplina, pois que, inadvertidamente, ja se estâo estabelecendo as bases dos paradigmas do século XXI.

 

 

Novo século, novo paradigma

 

                O contexto dos anos 90 é a própia crise do neoliberalismo e do pós-modernismo: está-se tornando moda falar de “terceiras vias”, também entre a modernidade e a pós-modernidade. É hora, pois, de buscar uma nova modernidade: mais autocrítica, local e global, social e cultural, estatal e livrecambista, mais complexa e difícil, que nâo abandone o criticismo, mas que tampouco renuncie à transformaçâo da sociedade, com a liderança da razâo...

 

                Nossa disciplina está, certamente, em crise, mas conservou –inclusive incrementado- seu dinamismo, e existe uma base estável da comunidade de historiadores (funcionários, em muitos países), que, mediante consensos tácitos, vai substituindo, ou tentando substituir, os paradigmas em crise. Alguns insistem na situaçâo de crise, e outros, no crescimento dos estudos de história. Chega-se a dizer que nunca se produziram tantas obras de história como nos tempos atuais. Alguns sustentam que nào há crise, porque se continua publicando... Na realidade, ambos os diganósticos têm base, e sua confluência está dando como resultado uma transiçâo entre os paradigmas do século XX e os do século XXI, que vai engendrando novos consensos, percebidos ainda como dificuldade, que estâo mudando a maneira de escrver a história, e nem sempre no melhor dos sentidos. Os novos consensos têm, em nossa opiniâo, aspectos positivos e negativos. O pior é que essa mudança de paradigmas se desenvolveu, inicialmente, sem o suficiente grau de auto-consciência, de debate e de reflexâo. Para combater esse defeito, organizamos, em 1993, o I Congreso Internacional Historia a Debate, tratando de apreender e de compreender as mudanças em curso, cuja segunda ediçâo estamos perparando para os dias 14-18 de julho de 1999, agora com a meta de contribuir para o processo de formaçâo dos novos paradigmas, ou seja, a escrita da história no século XXI, da qual um dos traços será, já esta sendo, um maior interesse pela reflexâo historiográfica: sâo cada vez mais os colegas que harmonizam, que buscamos harmonizar, os trabalhos empíricos com a reflexâo historiográfica e com o debate.

 

                A pregunta que se impôe, portanto, é: como se muda de paradigma? Existe alguma autoridade mundial ou nacional que dite os paradigmas pelos quais se deve reger uma disciplina? A rigor, nâo. Os motores das mudanças paradigmáticas nâo costuman estar à luz e funcionam mais pela via do consenso e da comunicaçâo que pela via da força. Verificamos que sâo três os caminhos que nos levaram, comumente a mudar a linha de investigaçâo: 1) A lei de rendimentos decrecentes. Tanto individual quanto coletivamente, quando se esgota uma linha de investigaçâo, costum-se buscar outra. Mais investigaçôes sobre uma temática ou sobre uma metodologia, em que se leva trabalhando, às vezes, muitos anos, nâo acescentam mais conhecimento histórico e, entâo, produz-se a mudança, por exemplo: a passagem (em que incidem, além disso, outros fatores) da história econômica à história das mentalidades, cultural, antropológica. 2) O mimetismo com historiografias de vanguarda. As historiografias de âmbito hispânico, tradicionalmente dependentes da Europa ou da América do Norte, sâo um bom exemplo (a superar). 3) A infuência da sociedade. Fator-chave, hoje: estamos diante de um fim de século, que coincide com uma mudança de civilizaçâo, que, nâo podia ser de outro modo, afeta todas as ciências sociais.

 

                E a historiografia nem sempre vai adiante da história. As nossas dezesseis teses de “La historia que viene” (na realidade, uma conclusâo do I Congreso Historia a Debate), acrescentaríamos, hoje, outra, com o número dezessete, insistindo em que “o futuro de nossa disciplina depende de nossa capacidade para adaptar-nos às profundas, vertiginosas e paradoxais mudanças que estâo ocorrendo entre o século XX e o XXI”. Parece obviedade, mas a verdade é que, freqüentemente demais, criamos a ilusâo de que a academia gira à margem do mundo (ou, pior ainda, que o mundo gira ao redor da academia).

 

                Vejamos alguns desafios que o novo século projeta, segundo nosso ponto de vista, para novo paradigma da escrita da história:

 

1-       Exigências sociais derivadas da globalizaçâo. Entendemos por globalizaçào o fenômeno de mundializaçâo da economia (previsto por Marx, no Manifesto do Partido Comunista) e da comunicaçâo (a aldeia global, anunciada por Mac Luhan), processo objetivo só parcialmente identificável às (transitórias) políticas neoliberais[19]. Em que a história que se escreve pode afetar ou está afetando a unificaçâo do mundo, informativa e cultural, social e econômica? Quais sâo os desafios que a mundializaçâo projeta para a historiografia?

 

-          A história fragmentada dos anos 1980 nâo serve para o mundo globalizado que vem. Urge retomar o conceito da história global, buscar novas formas de levá-lo à prática e estudar, em suma, por que fracassou o paradigma de “história total” da historiografia do século XX.

 

 

-          O novo paradigma da história, como tudo, será digital. O computador nâo só repercute, ou vai repercutir, no acesso às fontes (CD-ROM, arquivos digitalizados), no método de trabalho (tratamento de texto e banco de dados) ou no processo de divulgaçâo, mas tambêm, e isso é o mais importante, vai mudar o resultado final de nosso trabalho, conduzindo-nos à construçâo de outro objeto (o meio é a mensagem), naturalmente mais global. A possibilidade de introduzir, juntamente com o texto, elementos sonoros e visuais (fixos e en movimento) num CD-ROM, ou em um DVD-ROM, altera tanto a forma de expor como a forma de investigar: a simultaneidade da evidência escrita, da oral e da visual nâo torna possível uma reconstruçâo mais global de nosso objeto? É o caso, também, do hipertexto (que utilizamos habitualmente, navegando nas páginas da Web): ultrapassa amplamente as posibilidades do livro, até hoje meio quase único para a instrumentaçâo de nossas investigaçôes, em que podemos intercalar algumas citaçôes no texto e nas notas de rodapé, com a condiçâo de nâo sairmos do discurso linear (cada livro tem um princípio e um final). Com o hipertexto, mediante conexôes, poder-se-à ter acesso a muito mais informaçâo colateral, a outro livro, que, por sua vez, pode levar-nos a outras conexôes, de modo que já nâo há um princípio nem um final únicos, mas diversas leituras, como a própria realidade, sempre multidimensional, e que, desse modo, será reconstruída mais fielmente... A história poderá ser, assim, mais global, do ponto de vista empírico, nào só teórico. Teria que acrescentar as possibilidades que nos ofrecem a realidade virtual[20] ou a inteligência artificial... Em resumo: as novas tecnologias nos vâo permitir começar a ultrapassar as limitaçôes técnicas e epistemológicas, que nos impediram, na prática, de dar conta da realidade história em sua globalidade.

 

 

-          Com a Internet, nasce uma nova comunidade internacional de historiadores. A rede digital muda as regras da sociabilidade na comunidade de historiadores. As comunidades nacionais de historiadores continuarâo tendo sua importancia, mas a comunidade internacional estará mais próxima, será mais decisiva, porque o debate e acomunicaçâo serâo mais fáceis e livres, em cada especialidade e para o conjunto de historiadores. A fomaçâo em curso de novos paradigmas se verá favorecida pela rede de redes (correio electrônico, páginas da Web, grupos de noticias e chats), conforme a distribuiçâo dos usuários (e dos idiomas usados) se internacionalize de verdade.

 

 

-          Com a globalizaçâo, a historiografia mundial se torna mais policêntrica. As historiografias ocidentias dos séculos XIX e XX sempre tiveram um centro focal (Alemanha, França, Inglaterra...). Em 1993, no I Congreso HaD, Peter Buke dizia que, no momento atual, a renovaçâo passa pela periferia, certamente, e acrescentamos nós que o vital, agora, é que cada historiografia desenvolva sua capacidade de pensar por si mesma, sem liames “coloniais”, mas, isso sim, com um conhecimento próximo do que acontece no mundo (mais exeqüível, hoje, graças às novas tecnologias). Já nâo há um grande centro promotor das mudanças: todas as historiografias podem ser centro de iniciativa. Nos Estados Unidos, pretende-se, de alguma forma, reproduzir velhas dependências, mas nâo vai ser simples trasladar a hegemonia norte-americana do mundo do cinema para o académico, e menos ainda no campo das ciências humanas e sociais, uma vez superada a “guerra fria”, e em tempos tâo sensíveis a toda identidade nacionalista, como demostram as historiografias pós-coloniais e os “estudos subalternos” na Índia e em outros países, que justificam até que ponto a descentralizaçâo e a descolonizaçâo historiográfica já fazem parte do novo paradigma global.

 

2-       Exigências culturais e educativas que condicionarâo o século XXI: a resposta dos historiadores. Estamos vivendo um retorno –ainda tímido- aos valores humanísticos[21] e formativos, que nâo deveria passar desapercebido, como conseqüência do desdobramento do economicismo e do tecnocratismo neoliberal, que marcou os anos 1980 e parte dos 90. Em algunos países, como a Espanha, começa-se a relançar o papel da história e das humanidades no ensino[22]. Os paladinos da “terceira via” entre neoliberalismo e socialismo, Blair e Clinton, já fizeram da educaçâo o eixo de suas últimas (e bem-sucedidas) campanhas eleitorais na Grâ-Bretanha e nos EE.UU. Impôem-se, pois, novos valres e novos desafios para o papel da história no novo século. Como investigar e ensinar história no século multicultural, multirracial e multinacional da globalizaçâo.

 

3-       Exigências políticas e sociais dos novos (e velhos) sujeitos poolíticos e sociais. Os novos (e velhos) sujeitos políticos buscam sua identidade na História a nível local, regional, nacional, macronacional. A mitificaçâo da história pelos novos (e velhos) nacionalismos reaviva a funçâo crítica do historiador, como bem assinalou E.J. Hobsbawm. Os novos (e velhos) sujeitos coletivos perseguem também o compromisso intelectual, e do historiador, para elaborarem seu discurso e sua prática. É o caso dos novos movimentos sociais derivados das etnias, dos gêneros, dos grupos etários, das opçôes sexuais... E é o caso dos conflictos, das revoltas e das revoluçôes, que, na última década do século, retornam[23] à arena da história no leste da Europa (1989-1991), em Chiapas (1994), na França (1995-1998), na Bélgica, contra os pederastas e seus cúmplices, nos EE.UU., mobilizando “um milhâo” de homens negros, na Espanha (seis milhôes de pessoas, em julho de 1997, contra o assasinato de Miguel Ángel Blanco: símbolo gráfico do cartel de Historia a Debate II)[24].

 

 

Os movimentos sociais, quando sâo verdadeiramente significativos e autônomos, acabam arrastrando os acadêmicos. Pela primeira vez, desde os anos 1960 e 70, o intelectual retorna, em alguns países, a um certo compromisso político e social (o que está provocando um ácido, mas muito necessário debate). Aquí mesmo, no México, se está dando o melhor exemplo, particularmente na UNAM, onde os acadêmicos estâo trabalhando, desde 1994, a favor do compromisso social, ético e democrático com a situaçào de Chiapas. Nâo se trata de uma dinâmica “terceiromundista”, mas de um fenômeno tendencialmente global; também na França se está verificando um retorno ao compromiso intelectual, desde as mobilizaçôes sociais de 1995, especialmente em solidariedade aos imigrantes ilegais,protagonizado originalmente por cienastas, artistas e escritores, mas do qual participam cientistas sociais como Pierre Bordieu, que gerou a polêmica mais importante nas ciências sociais francesas –através do grupo Raisons d’Agir- sobre o compromisso intelectual de Zola a Sartre, e como Jacques Derrida, que, com seu livro Spectres de Max, ressuscitou o debate sobre o marxismo, tema-tabu na inteligência francesa desde os tempos de Althusser. Estamos, obviamente, ante uma militância bem diferente da que conhecemos nos anos 1960 e 70[25]: menos partidária, menos unidimensional e absorvente, a partir da especializaçâo acadêmica mais que a partir da militância política, à margem da TV (impermeável ao debate e à crítica, ao contrário da Internet). Era previsível: como impor limites aos “retornos”? As sínteses que estamos vivendo entre modernidade e pós-modernidade dâo lugar a paradoxos, como a curiosa desconexâo entre historiador e cidadâo, que sofrem alguns colegas, comprometidos em sua vida civil, mas que mantêm, por inercia, posiçôes academicistas em seu trabalho, como investigadores e como docentes, quando acontece que o principal desafio político e social do novo século à história profissional é a busca de um passado para os sujeitos que se agitam para determinar o futuro.

 

4-       Exigências científicas: a redefiniçâo da história como ciência. Hoje, é insustentável a definiçâo positivista novecentista da história (conhecer o passado “tal como foi”), que tanto eco tem ainda em nossa disciplina, porque é inconcebível uma “ciência sem consciência” (Edgar Morin), um objeto sem sujeito: as teorias do caos e a complexidade estâo abundando nessa direçâo. A nova física é, de novo, a referência mais segura para redefinir científicamente nossa disciplina, frente ao futuro. Na tese nº 3 de “La historia que viene”, dizíamos que “é uma falsa alternativa dizer que a história, como nâo pode ser uma ciência “objetiva” e “exata”, nâo é uma ciência”, porque, hoje, sabemos que a tearefa da ciência nâo é averiguar uma inexistente verdade absoluta, que a única verdade científica sâo as verdades relativas. Tal é nosso porvir: nâo abandonar a identidade da história como ciência, mas voltar a defini-la, abrindo mâo do conceito de ciência, de paradigma e de revoluçâo científica, que, hoje, a física aplica e que a filosofia da ciência elabora. De fato, a noçâo de novo paradigma, que vimos utilizando historiográficamente, há anos, está excluída da espistemologia e da história da ciência.

 

 

Depois da crise

 

                As últimas tendências historiográficas apontam a via adequada para sair da crise: avançam, sintetizando o mais velho e o mais novo[26].

 

                O novo paradigma nâo pode ser –ou seja, nâo responde às exigências do contexto e ao consenso da comunidade– o simples retorno à história tradicional, individualista, das grandes batalhas, mas tampouco a fuga para adiante da fragmentaçâo pós-moderna, sem prejuízo de se assumirem os aspectos positivos de ambos os planejamentos (que tâo depressa convergem como divergem).

 

                A história e a historiografia do novo século nâo podem fazer tabua rasa da história e da historiografia do século XX, com seus formidáveis ensinos e erros, e, menos ainda, pode tornar ao século XIX: queremos ajudar a nascer um século XXI melhor, pós-moderno, pós-liberal, contribuindo, a partir da história, para construir outra modernidade, outra ilustraçâo, outra racionalidade, outra história... e outra geraçâo: vocês.

 

                Entre os anos de 2010 e 2020 vai-se produzir, por razôes biolôgicas, uma grande substituiçâo geracional, que cabe aos centros de investigaçâo e de ensino. Como se sabe, o novo e o jovem nâo tem, automaticamente, por que serem mejores, mais progressistas ou mais eficazes que o velho; o último serviço que debe prestar uma parte da geraçâo de 1968, a mais autocrítica e menos arrependida, antes de desaparecer dos grandes e pequenos postos de decisâo, é fazer-se ponte para que a nova geraçâo, que ignora em demaisa –e, portanto, mitifica em excesso- a história recente, aprenda de nosso passado mais imediato e possa abrir novas avenidas para a história- que assim seja e que o “espírito” de March Bloch nos ajude.



*  Versâo escrita das conferências realizadas, com esse mesmo título, no dia 23 de abril de 1998, na Faculdad de Ciencias Sociales de la la Universidad Autónoma de Chiapas (San Cristóbal de las Casas) e, no dia 24 de junho de 1998, na Faculdad de Humanidades e Artes da Universidad de Rosario (Argentina).

[1] Num recente filme inglês, Two Deaths (1995), vários comensais celebram um banquete, em casa do médico de Ceaucescu, enquanto, na rua, acontece a revoluçâo democrático romena, aparentando indiferença para com alguns fatos, que, nâo obstante, vâo, antes mesmo de acabar o filme, mudar radicalmente suas vidas individuais.

[2] “El paradigma común de los historiadores del siglo XX”, La formación del historiador, nº 14, inverno de 1994-95, Michoacán, pp. 4-25; Estudios Sociales, nº 10, 1996, Santa Fe, pp. 21-44; Medievalismo, nº 7, Madrid, 1997, pp. 235-262.

[3] Georg Iggers, La ciencia histórica en el siglo XX. Las tendencias actuales, Barcelona, 1995.

[4] Crise de fim do século, que é simétrica à que viveu a historiografia positivista, em princípios do século XX.

[5] Com freqüencia, dependentes da evoluçâo de outras disciplinas mais fortes no teórico, subvalorizamos os achados de nossas historiografias, para logo receber, com entusiasmo, idéias parecidas de outras ciências sociais: um efeito perverso da uma versâo da interdisciplinaridade, que ignora a própria tradiçâo.

[6] “La contribución de los terceros Annales y la historia de las mentalidades. 1969-1989”, La otra historia: sociedad, cultura y mentalidades, Bilbao, 1993, pp. 87-118.

[7] “El retorno del sujeto social en la historiografía española”, Estado, protesta y movimientos sociales, III Congreso de Historia Social, Vitoria, julio, 1997.

[8] François Dosse, La historia en migajas. De “Annales” a la “nueva historia”, Valencia, 1989 (París, 1987); um dos erros desse livro, que tanto animou o debate, está em nâo se ter dado conta de que a fragmentaçâo nâo somente afetava a escola dos Annales, mas todas as correntes historiográficas e as relaçôes entre elas.

[9] Na Espanha, é preciso acrescentar ao menos uma década para observar essas mudanças subjetivistas na maneira de investigar a história.

[10] A história quantitativa foi a contribuiçâo mais importante da corrente neopositivista ao paradigma comum.

[11] Desde 1995, é cada vez mais freqüente o uso das Atas do I Congreso Historia a Debate para a redaçâo dos projetos docentes, como meio de assegurar uma visâo mais atualizada e problematizada de nossa disciplina.

[12] “Ataques”, entre aspas, porque nâo sâo gratuitos, dispôem de uma base objetiva, que nos obriga, por higiene intelectual, a levá-los em consideraçâo.

[13] Israel Sanmartín, La História según Fukuyama, 1989-1995, Santiago, tese de Licenciatura, 1997; o leitor pode comprovar que o que desaparecia com a tese de fukuyama era a História entendida também como reflexâo teórica e como compromisso com o progresso da Humanidade, dimensôes a que sempre resistiu, e resiste, o positivismo historiográfico.

[14] La Historia de la humanidad no avanza hacia una meta fijada de antemano, pero tampoco tiene vuelta atrás, tese 5 de “La Historia que viene”, Historia a Debate, I, Santiago, 1995, p. 101; a queda do comunismo confirma a primeira parte, e o desastre que supôs, posteriormente, no leste da Europa, o desmantelamento do Estado de bem-estar, construído pelos comunistas ratifica a segunda parte.

[15] Sobre o compromiso de Foucault, nos finais dos anos 1970 e princípios dos 80, com os direitos do homem, à maneira de Sartre, ver François Dosse, Histoire du structuralisme, II, Paris, 1992, pp. 424-426; Derrida foi um dos cientistas sociais franceses que se uniram, recentemente, aos cineastas, na defensa dos imigrados.

[16] O reducionismo lingüístico, difundido a partir dos EE.UU., também se proclama como história pós-moderna, mas sua influência é bastante menor, entre os historiadores, que o mencionado pós-modernismo ambiental.

[17] Paul Veyerabend, Tratado contra el método. Esquema de una teoría anarquista del conocimiento, Madrid, 1992 (Londres, 1975).

[18] O problema maior, aquí, é cair na ilusâo de pensar que a atual crise da história se pode resolver mudando linhas de investigaçâo, apostando na inovaçâo, fator necessário, mas certamente nâo suficiente, dado o caráter global –metodológico, epistemológico e social- da crise historiográfica.

[19] Reduzir a globalizaçâo a capitalismo seria cair num erro, parecido com o que cometeu a esquerda politica e acadêmica, quando identificou –e combateu- no passado, a democracia como um fenômeno burguês.

[20] A modelizaçào informática e simulaçâo já tornaram possível a reconstruçâo virtual, em três dimensôes e com animaçâo, com base nas escavaçôes arqueológicas, de cidades neolíticas, antigas ou medievais, e de outros monumentos.

[21] Alguns reacionários pretendem ainda ir em direçâo contrária à história (nunca dito melhor): uma pérola encontrada numa recente habitaçâo acadêmica, na Universidad Nacional del Sur (Argentina): é osupérfluo que o Estado continue pagando a formaçâo de literatos, filósofos, sociólogos e psicólogos –nota editorial, na primeira página da La Nueva Provincia (Bahía Blanca, 6 de julio de 1998); outros o pensam, sâo democratas ou esquerdistas, mas nâo dizem, por vergonha, claro.

[22] Segue-o, nesse caminho, a França, onde o governo de Lionel Jospin, depois da mobilizaçâo de 15 de outubro de 1998, de meio milhâo de alunos do ensino médio, prometeu voltar à formaçâo ética e cívica dos alunos, incrementando o peso da filosofia e da literatura (diferente da Espanha, a história nâo deixou de desempenhar  seu papel educativo na França socialista) nos programas, junto com a informático e a matemática.

[23] Trata-se do terceiro retorno do sujeito (coletivo, social): o primeiro aconteceu nos anos 70 (mental, social) e o segundo, nos anos 80 (individual, político).

[24] Ver a nota 7.

[25] Uma maneira inevitável de “manipular” o debate é afirmar, naturalmente, o contrário.

[26] Nisto, retificamos Kuhn, que tem uma visâo demasiado simples da revoluçâo (científica) como ruptura clara entre o velho e o novo (paradigmas).